2. ENTREVISTA 18.9.13

LUIZ ALBERTO DE VIANNA MONIZ BANDEIRA - "DILMA DEVE SUSPENDER A VISITA AOS EUA"

Historiador alerta que os americanos esto de olho no pr-sal e diz que o Brasil se transformou em alvo estratgico desde que passou a no obedecer s diretrizes do Pentgono
por Claudio Dantas Sequeira 

NOVO TOM - Para Moniz Bandeira, o governo brasileiro deve dar aos EUA uma resposta dura

Um dos maiores historiadores da atualidade, profundo conhecedor das relaes entre Brasil e Estados Unidos, o professor Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira, 76 anos, alerta que h mais de uma dcada o Brasil  alvo da espionagem da NSA (Agncia Nacional de Segurana Americana). Ele mesmo j havia relatado outros casos em seu livro Formao do Imprio Americano, publicado em 2005 e que acaba de ser lanado na China. Em entrevista  ISTO, Moniz Bandeira, que vive na Alemanha, chama a ateno para a necessidade de se investir na proteo do conhecimento estratgico do Pas. As descobertas do pr-sal inseriram o Brasil no mapa geopoltico do petrleo. Aos Estados Unidos interessam saber tudo sobre as reservas e sua explorao, inclusive para fornecer s empresas americanas e favorec-las na licitao das reas, afirma. Para Moniz Bandeira, o governo brasileiro deve dar aos Estados Unidos uma resposta dura, suspendendo a visita da presidenta Dilma Rousseff a Washington, em outubro. O presidente Barack Obama nada tem a oferecer ao Brasil. Seus interesses, certamente, concentram-se na venda dos caas F-18 da Boeing e nas concesses do pr-sal s companhias americanas, diz.

"Obama podia renovar a poltica internacional e aliviar  as tenses. Porm, ele revelou-se mais fraco e  mais sem carter do que se poderia imaginar 

A espionagem envolve todas as reas, sobretudo  a do petrleo. Aos EUA interessa saber todas as informaes possveis sobre as reservas"

Isto - A NSA diz que no espiona para fins econmicos, mas o caso da Petrobras parece desmentir essa verso. Qual  a amplitude da ao da espionagem americana? 

Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira - Esse sistema de espionagem, altamente informatizado para o processamento de Communication Intelligence (Comint), teve como objetivo inicial captar mensagens e comunicaes diplomticas entre os governos estrangeiros e suas embaixadas. Com o desenvolvimento da tecnologia, ampliou-se a sua utilizao. Eles passaram a utiliz-la para interceptar comunicaes internacionais via satlite, tais como telefonemas, faxes, mensagens atravs da internet, por meio de equipamentos instalados em Elmendorf (Alaska), Yakima (Estado de Washington), Sugar Grove (Virgnia Ocidental), Porto Rico e Guam (Oceano Pacfico), bem como nas embaixadas e bases areas militares.  

Isto - Por que a NSA ganhou tanta importncia entre as agncias de informao americanas? 

Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira - Ganhou grande importncia devido  sua capacidade tecnolgica de penetrao nos sistemas de comunicao de todos os pases do mundo, podendo captar as mais valiosas informaes no apenas polticas, mas tambm econmicas e comerciais. Desde o fim dos anos 60, a coleta de informaes sobre o desenvolvimento cientfico e tecnolgico tornou-se crescentemente um dos mais importantes objetivos da Comint, operada pela National Security Agency (NSA).

Isto - Nos documentos vazados da NSA, h meno  distribuio das informaes a Reino Unido, Nova Zelndia, Austrlia e Canad, pases integrantes do Echelon. Podemos concluir que tais documentos so produzidos com informaes coletadas por um sistema Echelon atualizado? 

Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira - Claro. As informaes, captadas pelo Echelon, que tem a National Security Agency (NSA), dos Estados Unidos, e o Government Communications Headquarters (GCHQ), da Gr-Bretanha, so sempre atualizadas e orientam as mais diversas iniciativas, no apenas polticas e estratgicas, mas tambm econmicas e comerciais. Os servios de inteligncia dos Estados Unidos tentaram vrias vezes negar que colaboraram com as corporaes industriais, e canalizaram suas informaes atravs de seus aliados estrangeiros ou de agncias.  

Isto - Temos informao de que na Ilha de Ascenso, a 2 mil km de Fernando de Noronha, h uma base de monitoramento do Echelon e que a partir da se daria a coleta de dados transmitidos aos satlites e por cabos.  

Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira -  uma das ilhas mais bem situadas estrategicamente e l est assentada uma base da Fora Area do Reino Unido, que serve tambm para as operaes militares dos Estados Unidos, desde a Segunda Guerra Mundial, quando foi de fundamental importncia na batalha do Atlntico contra os navios alemes.  bvio que essa base abriga as estaes de Singint, operadas, em Two Boats, pelo GCHQ, interceptando sinais transmitidos atravs de satlites ou radiodifuso, e as estaes da emissora de nmeros (rdio) E5/V5  Cynthia e/ou The Counting Station, operada pela CIA na comunicao com os seus agentes na Amrica do Sul e frica.  

Isto - A parceria com Reino Unido, Nova Zelndia, Austrlia e Canad  histrica, no? 

Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira - Durante a Segunda Guerra Mundial, no encontro com o presidente Franklin Roosevelt, o primeiro-ministro Winston Churchill virtualmente subordinou a Gr-Bretanha, que estava financeiramente exausta, aos objetivos estratgicos dos Estados Unidos, o que de certo modo envolveu Nova Zelndia, Austrlia e Canad, pases que pertencem  Commonwealth e que tm a rainha Elisabeth II como chefe de Estado. H uma comunidade de interesses. 

Isto - Nos ltimos dias, surgiu a denncia de que a NSA espiona a Petrobras, empresa que hoje tem acionistas americanos. Ser que essa espionagem se justifica? 

Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira - A espionagem, naturalmente, envolve todas as reas, sobretudo a do petrleo. Aos Estados Unidos interessa saber todas as informaes possveis sobre as reservas e, igualmente, sobre sua explorao, inclusive para fornecer s suas empresas e favorec-las na licitao das reas.  

Isto - O sr. considera que a tecnologia de explorao do pr-sal  o principal alvo dos EUA? 

Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira - Nunca tive a menor dvida. Alis, a Petrobras sempre foi alvo de espionagem, e no somente agora por causa da explorao do pr-sal. Ao suicidar-se, em 24 de agosto de 1954, o presidente Getlio Vargas, na sua carta de despedida, denunciou: Quis criar liberdade nacional na potencializao das nossas riquezas atravs da Petrobras e, mal comea esta a funcionar, a onda de agitao se avoluma. Graas s Foras Armadas, a Petrobras no foi privatizada e o Estado brasileiro ainda mantm o monoplio do petrleo. 

Isto - Alm da Petrobras, que outros alvos seriam estratgicos para os EUA aqui? 

Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira - O Brasil  um alvo estratgico, porque no mais obedece s diretrizes emanadas do Pentgono e do Departamento de Estado. O jornalista Glenn Greenwald, que divulgou os documentos da NSA, declarou em entrevista  imprensa, a respeito do Brasil, que o governo dos EUA sempre olha como ameaa pases que nem sempre lhe obedecem. Quanto mais desobedecer, mais ser visto como ameaa. Em 2010 e 2011, o Brasil, na condio de membro temporrio do Conselho de Segurana da ONU, no se alinhou aos EUA em seu objetivo de impor sanes e isolar internacionalmente Ir, Lbia e Sria. A percepo em Washington  de que a crescente preeminncia global do Brasil e seu envolvimento em diversas questes internacionais levaro inevitavelmente a disputas com os EUA. 

Isto - Alm das denncias de espionagem dos EUA, a prpria Casa Branca reclamou dos chineses, e temos o episdio do vrus Stuxnet implantado por Israel no Ir. Estamos vivendo uma cyberguerra e o Brasil foi tragado para dentro dela? 

Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira - O Brasil est inserido em um sistema econmico global e, qualquer que seja o tipo de guerra, naturalmente que o atinge. De um modo ou de outro, o que o Brasil deve fazer  armar-se, no s no campo da cyberguerra. Nenhum Estado respeita a lei internacional seno entre os que tm poder de retaliao. Essa lio deve pautar a estratgia de segurana e defesa do Brasil, sobretudo a IV Frota, que navega no Atlntico Sul,  margem das jazidas de petrleo nas camadas pr-sal. Essas descobertas, ao longo da costa, inseriram o Brasil no mapa geopoltico do petrleo. Iraque e Lbia somente foram atacados porque renunciaram  busca do poder nuclear.

Isto - Como Dilma deve reagir?  

Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira - A presidenta Dilma Rousseff, como chefe de governo e de Estado,  que tem condies de avaliar. Em todo caso, como resposta dura, soberana, creio que o melhor seria suspender essa viagem aos EUA. O presidente Obama nada tem a oferecer ao Brasil. Seus interesses, certamente, concentram-se na venda dos caas F-18 da Boeing e nas concesses do petrleo do pr-sal s companhias americanas.  

Isto - Recorrer  ONU  um caminho?  

Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira - Os Estados Unidos cada vez mais desprezam a ONU, porque esto perdendo sua hegemonia. O presidente Obama disse claramente pela televiso que o Conselho de Segurana para nada serve. Da mesma forma que o presidente George W. Bush no respeitou o Conselho de Segurana e as leis internacionais, quando ordenou a invaso do Iraque em 2003, o presidente Obama mostrou-se disposto a tambm se tornar um fora da lei, atacando a Sria, sob presso do prncipe Bandar bin Sultan, chefe do Servio Secreto da Arbia Saudita. 

Isto - Obama chegou  Casa Branca com um discurso crtico  guerra de Bush e s aes de espionagem.  uma decepo o seu atual comportamento? 

Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira - Em setembro de 2009, primeiro ano do seu mandato como presidente dos Estados Unidos, adverti que a inteno do presidente Obama podia ser a de renovar a poltica internacional do pas e aliviar as tenses geradas pelas iniciativas blicas, unilaterais, do seu antecessor, o presidente George W. Bush. Porm, ele revelou-se mais fraco e mais sem carter do que se podia imaginar.  

Isto - O que est em jogo na Sria que possa justificar uma ao militar que no tem apoio popular dos prprios americanos? 

Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira - Os fatores das rebelies nas repblicas que antes integravam a extinta Unio Sovitica e nos pases da frica do Norte e do Oriente Mdio so mltiplos, complexos e profundos, envolvem questes econmicas, sociais, polticas, tnicas e religiosas, bem como interesses geopolticos e estratgicos de Israel e das grandes potncias. Particularmente nas jazidas de leo e gs na bacia do Mediterrneo,  margem do Levante.  

Isto - O senhor tem sido crtico aos esforos de reconstituio da morte do ex-presidente Joo Goulart, cujos restos mortais foram exumados e esto sendo analisados. Acredita que possa haver algum fato novo que mude a histria sobre sua morte? 

Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira - Sou crtico  afirmativa de que ele foi assassinado, com base em meras suposies e em depoimento forjado de um bandido, sem provas concretas, ao contrrio das evidncias de que ele morreu vtima de um infarto. Que se faa agora a exumao  timo. Esperemos o resultado. A autpsia na poca no foi feita porque a famlia no pediu e a viva disse que no era necessria.

